O MELHOR DE TODOS OS TEMPOS
Saí de casa, muito embora com a artimanha de ir tomar um café e comprar cigarros. Fechei a porta, o ruido ecoou por todo o edificio praticamente em silêncio. Degrau a degrau, desci as escadas e cheguei á rua, olhei em redor e apercebi-me dum luar fora do vulgar para um 10 de Novembro, até porque durante todo o dia, chovera, esfriara, a lua em crescente, quase cheia, como que se inclinava para a frente em miragem de altoa baixo, mas o seu tom senhorial disfarçava-se dada a altura a que nos perceptava no solo. Sobre as árvores escuras traçadas na noite, iluminava uma nuvem com a sua luz prateada. Assim se traçava o quadro escuro-claro, efeito desejado por qualquer pintor para retratar um luar de Agosto. Por entre um caminho de "terra batida" que facilitava e encortava o acesso á zona mais urbanizada, lá ia eu, por vezes saltando, por se ter traçado no areal pequenos ribeiros formados pela água da chuva, que só terminavam já junto ao asfalto. No café tomei a "bica" e comprei tabaco ( a prova do bilhete de saida ), olhei á volta e constatei que o ambiente estava "meio-morno", uns jogavam dominó numa mesa do fundo, cercados ou não por espectadores atentos e criticos, tipico de um café de bairro; outros viam o telejornal, liam o jornal desportivo; outros bebiam e olhavam á volta conversando sobre banalidades. Quadro tipico de um café de bairro ou colectividade, onde os homens na maioria se reunem gastando muitas vezes o pouco que lhes sobra dum cansativo dia de trabalho, encontrando amigos, reafirmando pontos pessoais, bebendo e esquecendo o amargor da vida, longe das mulheres que normalmente só as olham ao jantar e á noite na cama para a asua satisfação carnal, mas que no entanto estimam e amam á sua maneira, nunca se subtraindo á condição de machos e chefes da casa e da familia.
 Saí p´ra rua e resolvi espreitar o que se passava noutro café um pouco mais abaixo, o café fazia esquina, num dos catetos era a porta; noutro num átrio que em tempos atmosféricos normais serve de esplanada, mas que em dias de chuva, está deserto. Ao preparar-me para atravessar a rua, chegou-me um aroma agradável, virei-me e estava o dono do café, o Zé, numa mesa acompanhado de dois clientes. Era o Silva, jogador de cartas costumeiro e habitualmente frequentador da "tasca" e um outro, que nunca por ali tinha visto, e que seria possivelmente, o fornecedor de tão cheiroso prato. Na mesa umas "quantas" garrafas de vinho, os três saboreavam a gostosa sardinhada de São Martinho, bebendo o valente tinto, que "derruba os fortes e dá força aos fracos".
 Este cenário fez-me recuar no tempo e na idade, e regressar ao casarão mal dividido, iluminado pelos candeeiros a petróleo, a casa da minha avó. Uma terna velhinha, baixa e "gordinha", simples, de cabelos negros já esbranquiçados p´lo tempo e olhar meigo e calmo. A cozinha era o local habitual da familia e sala de cerimónias para estes dias, como o São Martinho, Natal, Aniversários e Páscoa. Do rectângulo formado pelas quatro paredes da divisão, num dos lados existia uma lareira, baixa, enorme e escurecida por fogueiras feitas e que a brancura da cal não conseguia clarear sobre as pinceladas que, de tempos a tempos sofria. Havia também uma janela e uma pia, uma velha mesa de madeira com cadeiras adornadas com bilros de estilo já ultrapassado, sobre a mesa um candeeiro a petróleo fornecendo a toda a sala uma luz mortiça amarelecida e á volta dela estavam ali sentadas três gerações da familia e todo um conceito de vida em tranformação. Na parede, frente á janela, estava um móvel guarda-louças, de boa madeira escura e antiga com diversas peças, desde cálices de vidro trabalhado; á louça da "Vista Alegre" profundamente desenhada em azul e vermelho. Ali se guardavam também alguns cobres amealhados com tanto sacrificio, e as fotos ja amarelecidas p´lo tempo num álbum de imagens de familiares que nunca cheguei a conhecer.
 No buraco da lareira estava o fogareiro a carvão, de ferro já velho e negro, fornecendo um lume brando conveniente á assadura das belas sardinhas, gurdadas e preparadas, já descabeçadas e fortemente salgadas para estarem no apuro desejado para o dia de São Martinho. Havia uma porta que dava para o " cortelho" mais velho ainda que o mais velho dos presentes, em estado de conservação péssimo, que encimava com um repsirador em madeira tabuada e cruzada obliquamente, por cujos buracos espreitavam alguns velhos chapéus de chuva, ou simplesmente, os cabos de alguns que foram chapéus de chuva. Servia além de retrete, para arrumação de lenha e do "ferro-velho" que o meu avô já falecido guardara ali, e que a minha avó nunca tivera coragem de deitar fora. Lá havia também uma assadeira para as castanhas, de barro esburacada no fundo em pequenos circulos, com duas orelhas como pegas e que servia para pôr e assar as castanhas, depois de semi-cortadas ao centro. A minha avó botava-lhe sal em quantidade para as apaladar. Em torno da mesa estavamos nós. 
 A luz dava-nos uma expressão estranha amarelecida e cansada. Enquanto se comia, conversava-se (ainda havia aquele velho hábito, não havia televisão). Falava-se do dia-a-dia de cada um, da vizinhança, recordavam-se tempos já idos, reviam-se os mortos, lembrava-se aquele passeio ou facto acontecido num outro qualquer dia do ano. Depois de bebidos e refastiados pelas sardinhas, que se criticavam sempre, estarem magras mas que já não estavam no prato, o cansaço apoderava-se de nós. Fazia-se tarde. No outro dia, era dia de trabalho, ia-se para o mar, para o serviço, para a costura ou para a escola. Tinhamos de estar em forma para o dia seguinte. E as despedidas surgiam nas formas mais variadas mas nunca formais, depediamo-nos com um 2até amanhã, se Deus quiser", e lá iamos satisfeitos por termos gasto aquelas horas e festejado o nosso São Martinho da maneira habitual, ritual quase obrigatório.
 A vida memoriza-se e reaviva-se várias vezes na nossa existência. Foi o que me aconteceu hoje. Depois deste recuar no tempo já saudoso, voltei a casa. 
Para animar a festa - BOMBOCAS - Eles Sao Todos Iguais
PUBLICADO digitalblueradio às 10:56 | LINK DO POST
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